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Rio de Janeiro / Cotidiano

Marcos Palmeira: “Sou um operário da arte”

Marcos Palmeira revela gratidão por fazer parte do elenco de Pantanal e conta as emoções dos bastidores de hoje e de 30 anos atrás

 Claudia Mastrange

Fotos: João Miguel Junior/TV Globo e Reprodução

‘Larga mão…’ Quando Marcos Palmeira fala desse jeitinho, na pele do fazendeiro José Leôncio , na novela “Pantanal” o público ama  de paixão.  Pudera. O ator, de 58 anos, tem tudo a ver com o personagem do remake assinado por Bruno Luperi e que arrebatou o público noveleiro, não só pelas tramas, mas também pelas imagens e histórias de uma das regiões mais lindas do país.

Marcos já atuou em inúmeras novelas contemporâneas e urbanas, mas acaba sempre tendo sua imagem ligada aos temas rurais, seja por ter se destacado em tramas como a primeira versão do próprio “Pantanal (1990)” e “Renascer”(1993) ou pela vida pessoal, já que também é produtor rural e há mais de 20 anos toca a fazenda Vale das Palmeiras, no Rio de Janeiro.

“Quando vivi o jornalista Mario Sérgio, em “Vale Tudo”, me falaram ‘cuidado para não ficar estigmatizado como playboy carioca…’ Aí eu fiz o João Pedro de “Renascer” e disseram: ‘cuidado para não ficar estigmatizado como galã rural’. Então a gente vê que não há nada disso. Dá pra se fazer muita coisa. O que existem são bons personagens. E o personagem é sempre melhores que a gente. Os personagens é que me interessam”, disse em recente participação no “Encontro”, ainda com Fátima Bernardes, ao analisar uma galeria de trabalhos.

Marcos falou sobre o sucesso e os desafios de estar no ‘novo’ Pantanal. “Não vou dizer que é surpreendente, mas pelo jeito que tudo está acontecendo, não posso deixar de dizer que é uma boa surpresa”, contou, revelando que, ter vivido Tadeu (José Loreto) na primeira versão não o ajudou muito a criar o José Leôncio. “Tive muita dificuldade no inicio porque eu lia (no roteiro) José Leôncio, como se fosse o Tadeu. Um Zé Leôncio de 20 anos. Mas me ajudou a relembrar tudo que vivi naquela época”.

O ator contou que foi uma grande imersão, na época da primeira versão da novela. “Ficamos 5 meses lá direto. Eu ficava o dia inteiro com os peões, buscando marruá..Vivenciei muito aquilo. Então o José Leôncio de agora virou um Tadeu mais maduro ”, analisou ele, que ressaltou a importância de voltar à região. “Retornei algumas vezes, mas não para Rio Negro. Foi importante estar ali, voltar às lembranças. A novela foi muito importante na minha vida, mudou a minha vida. A partir dali passei a receber alguns convites que mudaram a minha carreira. Foi muito emocionante  e importante estar ali 30 anos depois. É um ciclo que se fecha, outro que se abre, e ano que vem faço 60 anos. É tudo muito simbólico”, avaliou.

Além de reencontrar parceiros da antiga equipe, como o violeiro Almir Sater, o ator contou que conseguiu rever também alguns peões da época. “Descobri que tem a ‘rua dos peões’ e consegui encontrar alguns, falo com eles de vez em quando. E também com a moça que fez a mãe do Tadeuzinho na época. Ela disse: ’lembra que você ficava tomando tereré lá em casa?’ Foi um resgate muito emocionante”, lembrou Marcos.

Bastidores animados

José Leôncio ( Marcos Palmeira ) e Filó ( Dira Paes ), no casamento

Sobre o clima dos bastidores, ele contou que a parceria da equipe é nota mil. “A gente acertou… sabe quando da certo? Um astral muito bom! Os bastidores são fantásticos… O prazer de estar no set É uma troca constante, a gente lê, se ajuda, se critica. É muito especial”, disse ele.

Apontado como um dos mais animados nessa convivência, o ator ressaltou: “Eu me coloco como um peão. Sou um operário da arte. Sou muito grato por estar ali, grato à arte, à cultura, ao público que nos assiste. Para mim é um momento mágico estar ali e eu estou inteiro”.

Revendo a emocionante cena em que Zé Lucas (Irandhir Santos) o chama de pai pela primeira vez, o ator falou sobre essa troca entre os atores. “é muito boa a possibilidade de estar sempre aprendendo com os outros atores. Cada um com sua escola, com sua forma de representar. A gente tenta estar atento a isso para dar esse frescor na cena”.

Marcos também sublinhou a importância de a novela abordar alguns temas, como a homofobia. “José Leôncio é um cara bronco, mas é muito inteligente, ele volta atrás, reflete em cima dos erros.  A  Filó (Dira Paes) traz muito ele à realidade. Há a questão da homofobia…que é muito interessante. A gente não aliviou em nada. O (autor ) Bruno Luperi foi brilhante na adaptação. Agora vem a questão a internet…maravilhoso”.

Carinho e natureza devastada

E pensar que ele praticamente precisou brigar para fazer parte do elenco da primeira versão da novela. Por que? Pasme: por conta do sotaque carioca. “Eu lembro do Jayme [Monjardim] me falando ‘não Marquinhos, você é muito carioca, você tem um sotaque muito carioca, isso não vai dar certo’. Eu falei para ele me dar uma oportunidade e a coisa deu muito certo. O maior elogio que eu recebi na época foi uma carta perguntando quem era esse peão que conseguia dizer o texto tão bem, e era eu”, disse em entrevista ao “Conversa com Bial”.

Agora,  com mais 30 anos de carreira na bagagem, o que inclui mais de 40 filmes e quase 50 novelas e séries, além de prêmios, ele novamente foi em busca de uma oportunidade de estar na trama original de Benedito Ruy Barbosa. “Quando eu soube da novela [versão atual], fiquei enlouquecido. Me coloquei à disposição para qualquer coisa. Disse ‘eu vou junto, eu vou só para ser mais um da equipe’… Aí ninguém me falou nada, e fiquei um ano segurando sem falar com ninguém, na torcida. E realmente ganhei esse presente de poder fazer o Zé Leôncio trinta anos depois”, contou.

A felicidade só não é mais completa quando ele lembra a diferença do cenário natural que encontrou agora, no Pantanal. “Na primeira versão da novela, a região era um pântano. As cenas de banho eram feitas em salinas cristalinas, que nem existem mais. Tinha muita água por todo canto, hoje é seco e árido.  A quantidade de bichos agora é bem menor, e eles aparecem em horários incomuns. Nas árvores, não se vê mais o ninhal, o refúgio das aves para descansar e reproduzir ”, contou em entrevista à revista Veja.

Ele acredita que a novela pode ajudar a jogar uma luz sobre o problema,  mas crê que a questão está fortemente ligada à política, e que é preciso uma grande batalha para que seja resolvida. “O meio ambiente e a classe artística estão sendo massacrados. Criou-se uma retórica de que nós, artistas, roubamos do Estado, e que o meio ambiente impede o desenvolvimento econômico”, disse.

Tentativa de ser pai novamente

Vida profissional a mil por hora, na vida pessoal  Marquinhos , como os colegas de trabalho o chamam, também vive um momento feliz. Casado desde 2016 com a cineasta Gabriela Gastal, o casal inclusive estava planejando ter um filho. Mas o planejado não aconteceu. Os dois se casaram quando o ator já tinha mais de 50 anos. “Eu e a Gabi até tentamos. Mas o processo é muito cruel, muitos hormônios. Não veio, e a gente se permitiu estar assim, decidindo não interferir tanto nesse destino”, disse, na entrevista à Veja.

Marcos já é pai de Julia, de 14 anos, fruto do casamento com a diretora Amora Mautner e Gabriela tem uma filha jovem.  Ele também foi casado com a atriz Vanessa Barun. O ator falou um pouco sobre o atual relacionamento: “É (um casamento) mais leve. Mas é sempre um exercício, não é fácil. As crises e as dificuldades sempre vão existir, só que nessa fase você está mais aberto. Consegue perceber, por exemplo, que deixar de falar algo que o incomodou pode dar espaço para que isso vire um problema gigante lá na frente. Hoje sou capaz de falar mais”, admitiu .

Vale das Palmeiras: o grande sonho

A forte ligação de Marcos Palmeira com o meio ambiente não vem de hoje. Dez anos antes da primeira exibição de “Pantanal” ele passou dois meses na aldeia Xavante de São Pedro (MT), onde recebeu o nome de Tsiwari, ou “o Filho Valente”. Dois anos depois, o jovem passou 30 dias entre os Arara, no Pará, junto com o fotógrafo Luís Carlos Saldanha, que fazia um documentário.  Foi nessa época que abraçou a arte  e entendeu a importância que as comunidades indígenas têm para o país e de valorizá-las.

Em 2004, portanto 25 anos depois, retornou a Mato Grosso para o documentário “ Expedição A’Uwe – A volta de Tsiwari”.  Nessa época, já era também agricultor. Havia comprado  uma fazenda de 200 hectares, em Teresópolis, região Serrana do Rio,  com vegetação degradada, áreas afetadas pelo desmatamento e uma pequena  e pequena produção convencional de hortaliças. Aos poucos, restaurou toda a área  incluindo a proteção do entorno de nascentes.

“Hoje somos uma RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, onde o proprietário assume compromisso com a conservação da natureza”, diz Marcos Palmeira, no portal da Fazenda Vale das Palmeiras.

Aos poucos, um sonho antigo ligado às origens do avô de Marcos foi se tornando realidade: iniciar a produção de leite 100% orgânico para seus derivados como queijo minas frescal, ricota, coalhada, queijo cottage e iogurte. A Vale das Palmeiras possui a Certificação Orgânica desde 1997.

Projeto Balde cheio

A fazenda também é um espaço de aprendizagem. Possui parceria com a Embrapa com o projeto Balde Cheio, que tem como objetivo a capacitação de profissionais da assistência técnica, extensão rural e pecuaristas em técnicas, práticas e processos agrícolas, zootécnicos, gerenciais e ambientais.
No dia a dia dos processos orgânicos da Vale das Palmeiras, o bem-estar e segurança de todos os colaboradores são seguidos à risca, assim como com os animais, sempre buscando a produtividade através da sustentabilidade.

“Como produtor rural, quando fui trabalhar com a agricultura orgânica, entendi o que significa a palavra sustentabilidade, agrofloresta, biodinâmica, permacultura”, conta Palmeira. “Foi aí que entendi esse maravilhoso mundo dos orgânicos, da minha experiência com a fazenda, de uma situação muito simples, quando descobri que um funcionário não comia aquilo que ele estava plantando. Aí as fichas todas caíram e entendi o que era aquele agrotóxico”, contou ao Estadão.

Prova de total qualidade dos produtos é que, em janeiro de 2022, o queijo frescal da Vale das Palmeiras foi eleito um dos melhores do Brasil, numa premiação que contou com a inscrição de 120 queijos de 60 diferentes produtores de 18 estados. Mais um sucesso na trajetória desse ator, que ama as artes e a natureza.

Fotos: João Miguel Junior/TV Globo e Reprodução