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Rio de Janeiro / Cotidiano

Alcione: “Não caí de paraquedas na Sapucaí!”

Por Claudia Mastrange

São 49 anos de estrada e uma trajetória que nem a pandemia consegue parar.  Alcione, a maranhense mais carioca do Brasil, precisou botar o pé no freio por conta do isolamento social, mas, agora, já está a todo vapor com seus projetos e uma nova e bem sucedida vertente: a de empresária. Depois de inaugurar o Bar da Alcione, na Barra da Tijuca, com direito a retomar seus shows, a cantora se prepara para lançar em outubro o segundo espaço, com o mesmo nome, nesta vez no Catete, Zona Sul do Rio.

“O Bar da Alcione, a Casa da Marrom, surgiu de um convite, por parte de um grupo de empresários, que me honrou muito.  Mas também é a realização de um sonho. Afinal, no início de minha carreira, cantei em inúmeras casas noturnas. Era uma excelente alternativa para os artistas  ainda desconhecidos ou em ascensão, e ‘a noite’ acabou por revelar diversos talentos como Emílio Santiago, Joanna, Áurea Martins, Djavan, entre tantos outros. O Bar da Alcione também tem  esse objetivo de revelar nomes, apresentar novos trabalhos, mostrar ao público gente de talento e que precise de visibilidade. Além, naturalmente, de proporcionar shows com grupos e artistas conhecidos e  admirados pela população”, conta a cantora.

O drink “Meu Ébano”, feito de amarula, vodca, xarope de cookie, espuma de chantilly, ovomaltine, água de coco e calda de chocolate  é  drink preferido de Alcione na carta do bar, onde os público, em, setembro, conta com os shows intimistas da Marrom, que une seu vozeirão á participação da cantora….. E são os sucessos da artista, que seguem nomeando novos drinks criados por Alex Marins.

Todos ganharam o nome de super hits eternizados pela intérprete : “A Loba” (espumante, suco de laranja, xarope de melancia, angostura), “Estranha loucura” (rum, licor cítrico, abacaxi, uva roxa, xarope de açúcar, hortelã),  “Sufoco” (vodka, xarope de melancia, sour mix, xarope pimenta, hibisco, glitter rosa) ) e “Você me vira a cabeça” (gim, soda, amora, tangerina, licor de laranja, xarope de açúcar). O “Samba”, sem componente alcoólico,  tem capim santo, xarope de açúcar, maçã verde e suco de limão. Sem dúvida, uma atração à parte.

Já a nova casa, no Catete, fica no pé da ladeira de acesso do Morro Santo Amaro, mais precisamente na Rua Pedro Américo nº 277. A cerca de 1 km do Museu da República, o imóvel foi construído no final do século XIX, tem estilo neoclássico. Foi totalmente recuperado pelo economista Carlos Lessa, que inaugurou o Ameno Resedá em 2012. Na inauguração, claro, é Alcione quem vai subir no palco, em grande estilo.

E como tem sido voltar a cantar após tanto tempo de isolamento social, com direito a algumas lives? “Foi muito bom, uma alegria muito grande. O repertório é feito de músicas que as pessoas querem ouvir. Coisas da minha vida, e não é pouca coisa, afinal tenho 49 anos de estrada. Procuro atender a todos pra todo mundo ficar feliz — conta a cantora, lembrando o inicio da carreira: “Eu rodei por todos aqueles bares da época e era uma energia diferente, uma galera bem perto de mim. E agora de novo, todas as quintas de setembro nós temos essa intimidade com o público, cantando de pertinho. Estou muito animada “, diz.

Saudade das resenhas e ativa nas redes sociais

Além do hiato dos palcos, durante a pandemia, uma das coisas  que Alcione mais sentiu falta foi daquelas resenhas entre amigos. Agregadora, ela sempre reúne amigos e familiares, normalmente em torno de uma boa comida. Sim, a Marrom ama cozinhar. “Gosto de agregar, reunir as pessoas para conversar, comer bem… Minha especialidade são os frutos do mar. Faço bobó de camarão, uma torta de caranguejo divina”, conta ela, que aos poucos está retomando as atividades. “São 49 anos de estrada, sem brecha, nunca tirei férias. Mas veio a pandemia e não pude mais fazer esses encontros. Tive que ficar muito tempo sem contato com as pessoas”, diz.

A cantora sente falta de estar mais próxima de seu público, como sempre ficou ao longo de sua trajetória.  E agora mata a saudade com os shows e as atividades do Bar Alcione. “Foram férias  forçadas né? Nunca parei porque gosto demais do que faço. E agora é bom retomar as atividades porque nosso corpo precisa estar ativo. E principalmente a cabeça”, diz.

Nos quase dois anos que ficou sem fazer shows, Alcione, como a grande maioria das pessoas, mergulhou no mundo digital para estar mais pertinho de seu público. “Atuar nas redes sociais é uma alternativa, uma maneira que encontramos para estar mais próximos  dos fãs e público em geral. Estreita essa relação hoje tão prejudicada pelo advento da pandemia. Não sou nenhuma expert nessas tecnologias modernas, mas estou me virando bem e conseguindo me comunicar com as pessoas. E lá, nas chamadas redes sociais, aproveito para informar e atualizar os fãs sobre as minhas atividades, agenda e planejamentos”, conta.

Carreira Tijolo a Tijolo

O mais recente álbum lançado por Alcione foi Tijolo a Tijolo, que saiu pela gravadora Biscoito Fino em 2000.  “Tijolo por Tijolo é um álbum de inéditas, após alguns anos realizando projetos diferenciados. Mas o público e os próprios compositores me perguntavam sobre um disco com músicas novas. É um álbum lindo, com composições de grandes autores. Estamos divulgando aos poucos, e já lançamos alguns singles que estão agradando – e muito –  ao público. Mas Tijolo por Tijolo já está integralmente nas plataformas sociais, e o disco físico pode ser adquirido pelo site da gravadora”, afirma a Marrom.

E por que esse nome?  “Tijolo por tijolo, foi assim que construí minha carreira. Não caí de paraquedas na Sapucaí!!! Desde o início optei pela construção de uma  trajetória,  jamais pensei em ser apenas uma cantora de sucesso. Talvez por isso tenha conquistado tal longevidade em minha carreira”, disse na apresentação do álbum, o primeiro depois de  sete anos sem gravar um CD com canções inéditas. O trabalho  foi produzido por Alexandre Menezes e  conta com arranjos de Jorge Cardoso,  Jota Moraes, Prateado, Zé Américo Bastos e do próprio Alexandre  (diretor musical da Banda do Sol).

“Esse disco tem  autores que eu gosto, aprecio demais, como Toninho Geraes. Toninho compôs com  Paulinho Rezende o primeiro single a ir para as plataformas digitais: Fascínio. Quando  me mandou esta música, fiquei encantada… É muito linda! Eu gostei demais da letra, da linguagem  utilizada.  É um grande poeta… quando mete a caneta, já sabe…Vai ter sempre um espaço pra ele em um disco de samba, de música popular. Paulinho Rezende marca presença em meus discos desde o início da carreira, e me deu inúmeros hits”, conta

O álbum traz 14 músicas compostas especialmente para a Marrom, e uma assinatura inédita em seus discos: a de Jorge Vercillo, que compôs a canção Meu universo em parceria com Zeppa. “A primeira vez que gravo uma música do Vercillo, esse pequeno é danado! A música que fez com Zeppa, grande músico e compositor que já conheço  e admiro há décadas, merecia um espaço nesse disco, diz.

Destaque também para uma linda homenagem a Pelé em O homem de Três Corações, de Altay Veloso e Paulo César Feital. “Eu não poderia deixar de fazer uma homenagem a Edson Arantes do Nascimento, o nosso grande Pelé, o maior Atleta do Século! Quando o Altay me mandou esta música…Nossa…Só Altay e Paulo Feital  para o definirem dessa forma tão poética e intensa. Pelé merece todas as homenagens. E eu, felizmente, estou tendo a oportunidade de reverenciá-lo. Pra você, Pelé!”.

Tijolo por Tijolo é o 42º álbum de Alcione (sem contar os três compactos iniciais gravados antes do primeiro LP), em quase 50 anos de uma carreira sólida, consagrada e de um sucesso que extrapolou fronteiras internacionais, como aconteceu em sua mais recente turnê europeia por países como Suíça, Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal, antes da pandemia.

A mangueirense que ganhou o mundo

Trompetista de primeira e muitas histórias (Foto Reprodução)

E se o vozeirão abençoado de Alcione não tem fronteiras, sua história também vai além da música. Tanto que recentemente ela ganhou um documentário sobre sua trajetória O Samba É Primo do Jazz, que competiu no Festival de Gramado e, agora pode ser visto no streaming. Reunindo material de arquivo, entrevistas e imagens de ensaios e shows, o filme é dirigido por Angela Zoé.

Em 2022 será a vez de um musical Alcione, Eu sou a Marrom, dirigido por Miguel Falabella e Jô Santana. “Ele é craque. Não vejo a hora desse musical estrear”, declarou a artista. A cantora já promoveu reuniões com a equipe de produtores, liderada por Jô Santana, para contar um pouco de sua biografia, da infância até a fase atual. A ideia é que a produção estreie em São Paulo, no Rio de Janeiro e faça turnê, por outras 8 capitais, entre elas, claro, São Luis do Maranhão, terra natal da cantora.

Alcione Dias Nazareth é a quarta de nove filhos do casal João Carlos e Felipa. Formou-se professora primária em sua cidade e chegou a dar aulas, mas foi demitida por, um dia, ter resolvido tocar trompete para os alunos em plena aula. Em 1967 mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de seu sonho. A Marrom, apelido que ganhou desde o início de sua carreira artística, detém um glorioso currículo que inclui os principais palcos do Brasil e do mundo, já tendo cantado em mais de 30 países.

Gravou 3 compactos e mais 42 álbuns. Com alguns deles  ganhou 26 Discos de Ouro, 07 de Platina, sendo 02 de Platina Duplo, 03 DVDs de Ouro e 01 DVD de Platina. Em sua galeria de troféus – com mais de 350 peças – possui títulos e honraria e prêmios internacionais, como ‘A Voz da América ‘ , concedido pela ONU.

Precursora, fundou a escola de samba mirim da Mangueira (Grêmio Recreativo Cultural Mangueira do Amanhã, da qual é Presidente de Honra), o Centro de Arte da Mangueira – Mangueirarte e o Centro de Apoio. Fundou também, ao lado de João Nogueira, Clara Nunes, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara e tantos outros sambistas, o Clube do Samba, na década de 80. Por sua imensa contribuição ao universo do samba, já foi enredo de escolas de samba nas cidades do Rio de Janeiro, São Luís, Juiz de Fora e São Paulo.

Dona de uma voz inconfundível, personalidade marcante e suingue inigualável, a nossa Marrom é uma das artistas brasileiras mais prestigiadas no Brasil e no exterior. Bravíssimo!

Fotos: Mariza Lima