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Rio de Janeiro / Saúde

HIV aumenta riscos de doenças do coração

Foto: divulgação

Por: Dr. Leonardo Quicoli, médico cardiologista 

Desde a sua descoberta, em 1981, a AIDS matou mais de 35 milhões de pessoas. Segundo a pesquisa, a mortalidade por Aids caiu entre 1996 (ano em que o Brasil se tornou o primeiro país em desenvolvimento a fornecer acesso universal aos antirretrovirais) e 1999, e desde então se mantém estável. No entanto, nos portadores do HIV, a mortalidade por outras causas, como doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças do fígado ou dos rins, subiu quase 8% ao ano. Já entre os não portadores do vírus, esse aumento não chegou a 3%.

Segundo especialistas, a queda na mortalidade se deu com o acesso à terapia dos antirretrovirais. Mas os soropositivos não estão recebendo atenção médica para monitorar outras doenças. O vírus ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças e, consequentemente, pode levar à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e ainda ser um facilitador para o desenvolvimento de outros problemas, como por exemplo, o aparecimento de doenças cardiovasculares.

Um estudo realizado nos Estados Unidos com 2.800 pessoas e publicado no Journal of the American College of Cardiology, indicou que os portadores do HIV são 4,5 vezes mais propensos a morrer por ataque cardíaco do que as pessoas que não têm esse vírus. No Brasil, uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no hospital Clementino Fraga Filho, mostrou que os pacientes com HIV estavam morrendo mais de problemas cardiometabólicos, como infarto e diabetes, do que em decorrência do enfraquecimento do sistema imunológico, que caracteriza a síndrome (AIDS).

No caso específico das doenças do coração, houve um aumento da mortalidade de quase 8% entre os soropositivos atendidos no hospital, ante 0,8% na população em geral. Isso se deve ao próprio vírus causador da aids e os medicamentos que compõem o coquetel antirretroviral provocam reações no organismo que elevam as chances de cardiopatias. O vírus pode agredir diretamente as células do miocárdio e causar insuficiência cardíaca.

Além disso, a doença leva a diversos outros males que afetam a saúde do coração. Sabe-se que o HIV pode provocar diversas alterações no colesterol de seus portadores, aumentando níveis de triglicérides e colesterol ruim, e também diabetes. Mas é possível seguir o tratamento corretamente e acompanhar de forma segura as alterações cardíacas que podem surgir ao longo da vida do paciente.A avaliação profissional é a melhor forma para detectar problemas cardíacos em pacientes com HIV. Por meio de exames simples, como o ecocardiograma, por exemplo, o médico consegue diagnosticar a doença e tem a chance de tratá-la na fase precoce.

Estudos recentes sugerem que a própria infecção pelo vírus HIV, ao levar a um processo inflamatório crônico, pode ter relação com o aumento do risco cardíaco. Algumas classes de drogas antivirais também elevam o colesterol. Mas, é claro, os médicos recomendam manter o tratamento mesmo assim, para controlar a infecção. A preocupação com esses distúrbios tem crescido tanto nos últimos anos que seguir uma dieta equilibrada, praticar atividade física e mudar hábitos, como parar de fumar, já fazem parte das recomendações médicas para o tratamento do HIV. Em alguns casos, medicamentos redutores de colesterol, como as estatinas e os fibratos, são adicionados aos antirretrovirais.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), desde a sua descoberta na França, muito se avançou no que diz respeito ao tratamento e à prevenção, mas, ainda assim, a doença, sua evolução e consequências precisam ser melhor entendidas pela população.